quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Do Baú II

O homem caminhava pensativo pelas ruas da cidade, já não tinha tanta certeza. Às vezes era assim mesmo, acordava com toda a certeza do mundo e de repente sentia aquela sensação ... será que tem sentido? Será que tudo isso - um dia - vai fazer sentido? A certeza já não era tão certa, já era quase uma incerteza, quase uma dor, dor de não saber.
No meio desses pensamentos o gato sorriu.
Ele sorria porque tinha a resposta? Ou porque a resposta não existia?
O homem não resistiu, e na esquina, próximo ao beco dos gatos, rendeu-se a sabedoria do felino.

(foto Cartier Bresson)

P.S. uma brincadeira que achei ao visitar palavras antigas.

Do Baú

Queria um dia escrever

Amor da minha vida,
(simplesmente assim)
Me guarde
Aguarde
Por mim.

sábado, 6 de setembro de 2008

A poesia por ai

tem gente que carece de poesia,
enquanto para outras,
transborda.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Regiões de Solidão

Ela gostou tanto quando ele se referiu a ela como sua região de solidão. Ela que tinha em si, em sua essência, regiões inabitadas. Gostava de ser assim, gostava da imensidão, do penhasco, da queda livre, não conseguia imaginar-se finita e gostava dessa sua porção sem fim. Ela era sua própria região de solidão, de solitude e era maravilhoso conter-se dessa forma, ilimitada. Ela foi criada para não pertencer, para não ser só, mas para ser mil, mil em uma, uma em mil. Ela que gostava do sentir, das sensações, dos sentidos, do tato, do cheiro, do gosto. Sentia tudo com exagero, um segundo de sentir poderia ficar para todo o sempre. Por causa das suas palavras era eterna em um segundo. Não era literal, nunca era, nunca é só isso. Era metáfora, metonímia, hipérbole, adorava figuras da linguagem, era todos, sem nunca ser nenhuma. Era a essência do que escrevia, e isso era libertador. As palavras podiam tudo, até calar-se, enquanto a levavam. Só tinha medo de um dia não voltar. Mas, se esse dia chegar ...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Como é?

Como é me ter ao alcance das mãos e não me tocar?
Como é me achar e não me encontrar?
Como é me ver e não me enxergar?
Como é não me ouvir e escutar minha voz a chamar?
Como é me ler e não me desvendar?
Como é conhecer o símbolo e não gostar?
Como é tentar e não me decifrar?
Como é sentir o que eu sinto e não se afogar?
Como é sentir meu gosto e não me devorar?

Regiões de solidão

Ela gostou tanto quando ele se referiu a ela como sua região de solidão. Ela que tinha em si, em toda sua essência, regiões inabitadas. Gostava de ser assim, gostava da imensidão, do penhasco, da queda livre, não conseguia imaginar-se finita e gostava dessa sua porção sem fim. Ela era sua própria região de solidão, de solitude e era maravilhoso conter-se dessa forma, ilimitada. Ela foi criada para não pertencer, para não ser só, mas para ser mil, mil em uma, uma em mil. Ela que gostava do sentir, das sensações, dos sentidos, do tato, do cheiro, do gosto. Sentia tudo com exagero, um segundo de sentir poderia ficar para todo o sempre. Por causa das suas palavras era eterna em um segundo. Não era literal, nunca era, nunca é só isso. Era metáfora, metonímia, onomatopeia, hipérbole, adorava figuras da linguagem, pois era todos elas, sem nunca ser nenhuma. Era a essência do que escrevia, e isso era libertador. As palavras podiam tudo, até calar-se, enquanto a levavam. Só tinha medo de um dia não voltar. Mas se esse dia chegar ...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Bem vindo!

Ela queria achar as palavras certas, foi buscá-las lá fora. Não as encontrou. Olhou para dentro, não eram palavras, mas estava ali a resposta. O que não se traduz em palavras serve para testar o sentir. Ela sentia. O sentimento parecia conhecido, mas ela constatou encantada que era novo.
- Seja bem vindo!

Dúvidas

Dizem por ai que só se dá valor depois que perdemos. Eu estive pensando: para outras basta que voltem para percebermos como era bom.

Ninguém é 100% bom, nem os mocinhos dos Contos de Fadas. Ou eles são?

Promessas são feitas para não cumprir. Mas algumas pessoas ainda teimam em cumpri-la. Ou não?

Não-fazer é a mesma coisa do que não-sentir?

Isso está confuso demais hoje ...
vou respirar lá fora...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Arquétipos

Era uma vez uma menina má que se apaixonou por um menino bom.
Era uma vez um menino bom que se apaixonou por uma menina má.
O menino bom só por maldade avisou:
- Ou ficas boa ou vou embora.
A menina má, cheia de bondade disse:
- Pode ir, prefiro que vá a ter que carregar o fardo de me ter transformado.
- Pode ir, prefiro que vá a deixar-te carregar a culpa pelas transgressões.

Menino bom foi, mas volta sempre para (l) vê-la.
Menina má queria ele ficasse um dia.

Raiva

Eu senti raiva. Passei alguns dias com muita raiva. Eu não sou uma pessoa de raiva, tento cultivar sempre bons sentimentos, e nunca sinto raiva por mais de cinco minutos. Achava que desse jeito era certo. Há algum tempo fui em um médico que pratica medicina chinesa, depois de conversarmos por algum tempo ele pegou no meu pulso, olhou a minha língua e antes de começar a equilibrar meu chin com acupuntura me disse que eu tinha excesso de energia do fígado, órgão também relacionado com raiva. A verdade é que até aquele momento eu nunca tinha pensado que não sentia raiva, ou melhor sentia, mas sempre dava um jeito de minimizá-la. Grande erro. Entendi que a raiva é boa, move, mobiliza, traz o sangue para as veias, deixa a gente mais passional, e isso tudo quando usado para o bem, constrói. Desde de então tenho tentado sentir raiva. Mas nunca antes tinha passado tanto dias em contato com ela. Senti raiva de tanta gente, senti raiva de tanta coisa. Confesso que ainda não consigo lidar com ela de forma construtiva, mas pelo menos já consigo conviver por mais tempo com ela, mesmo que depois me sinta péssima, cansada e triste. A raiva se transformou em tristeza. Não fui valente ... perdi a batalha.