domingo, 14 de julho de 2013

Como se responde uma pergunta retórica?

Um segundo. Bastou um descuido seu para que ela pudesse ver. Durou apenas um segundo. O olhar, um segundo de olhar,  mas ela viu. No meio de assuntos entrecortados, milhões de assuntos começados, milhões de assuntos inacabados. Uma palavra, lembrança, puxava outra, saudade, que trazia a memória, que contava de hoje, de ontem, da vida.

E no meio de tantas palavras, água, café, histórias, confissões, lágrimas, um olhar. Um olhar que durou apenas um segundo, e ela viu. Não que ela seja boa em ver olhares, ela não é boa em ver muitas coisas, nem olhares, mesmo quando basta ver. Ela não via.

Na mesa ao lado amigos brindavam com vinho tinto. Parecia uma boa ideia. Pena ela não ter ser lembrado, vinho não tem sido uma boa ideia. Pediu vinho, uma taça. Vinho diluído,
diluindo...palavras diluídas...

Ele dizia coisas sem sentidos, coisas sem sentido, mas que fazem sentido no jeito de dizer, só que não. E no meio de coisas sem sentido. Ela disse uma única frase. E foi apenas nesse exato momento, entre a frase ser dita e o olhar ser percebido, que as coisas fizeram sentido.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

De ponto em ponto, chego a outro ponto ...

Sinto saudades daquele olhar que me via como se eu fosse, mesmo quando eu não era. Sinto saudades do abraço que aceitava o que eu era, mesmo quando eu não. Sinto falta do beijo que alcançava as estrelas do céu da boca e me mostrava o caminho que eu não conhecia. Sinto saudades das palavras doces, sussurradas, não ditas, insinuadas, escritas no ar, no espelho, no papelão, no e-mail, nas cartas, bilhetes, torpedos, na pele, no corpo, na alma. Sinto saudades do amor que foi o amor mais bonito, mais completo, mais verdadeiro, mais de amor que eu já tive, vi, vivi, sobrevivi. 
Uma pena o amor não aguentar o desamor, a dor, a magoa, a falta do próprio amor...

"Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima."


"Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
   Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
   Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa."

De ponto em ponto, chego a outro ponto ...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Voltando para casa...

Estive em outros lugares. Endereços, espaços, estado. Adoro a amplitude da palavra estado. Estado pode ser tanto. Estado liquido, palavras molhadas, estado sólido, palavras pedras, estado de espirito, triste.

Escrevi outras palavras, palavras que pareciam minhas e não eram. E olha a ironia, onde não eram as minhas palavras, na verdade, eram as mais verdadeiras. Exatamente aqui, onde eu não era, ou achava que não, era real e verdadeiro.

domingo, 14 de abril de 2013

Só as coisas que fazem falta.

As vezes perco o rumo. Os passos deixam de me levar aonde deveriam. O caminho conhecido passa a ser desconhecido. Tudo fica suspenso. E nesses momentos, eu recorro ao espaço onde tudo começou, talvez seja uma tentativa de fazer o tempo voltar. De poder começar de novo. Não, não faria tudo da mesma forma. Mudaria algumas coisas. Só as coisas que fazem falta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ah! Pessoa.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” – Fernando Pessoa

 No tempo da travessia é necessário coragem, a coragem do desapego. A coragem de deixar ir ao mesmo tempo que se vai. Além das roupas, é preciso abandonar velhos hábitos, o perfume conhecido, os livros lidos, as palavras ditas (mesmo que não ouvidas). É tempo de medo, medo do escuro, de não saber, não conseguir, não querer. Mas também e principalmente,  é tempo de confiar que tudo passa, inclusive o tempo da travessia. É tempo de esperar a chegada. E esperando, partir.

Clarice partiu.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Fiz um cartaz.

"Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás amor a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na vodca"

domingo, 2 de dezembro de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Carta que é uma oração.

Querido,

Finalmente fez sol e eu pude caminhar pela redondeza, estou chegando e quanto mais me aproximo, mais feliz me sinto. É bom ter de novo um lar. E sei que meu lar está próximo. Mesmo sabendo que levo meu lar comigo, dentro do peito, me sinto me aproximando dele. Parece estranho, mas faz sentido daqui. Hoje durante a minha caminhada encontrei a ruína de uma antiga igreja, não resisti e acabei entrando, o teto estava destruído, mas restava alguma coisa do altar, me aproximei, havia uma cruz feita de pedras. Achei bonito. E quando percebi estava rezando. Logo eu que há anos não entrava em uma igreja, estava em frente a cruz rezando. Rezei por nós. Pedi para que Deus te devolvesse olhos felizes. Rezei para que fizessemos escolhas certas e que tivessemos fé e sabedoria. Me pareceu certo pedir fé e sabedoria. Você que entende mais de Deus o que acha? Ele vai me atender? E depois, chorei.

Estou chegando. Já escrevo com o novo endereço.

Com todo meu amor.

Clarice



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bilhete

Meu deus como chove por aqui. A jornada fica mais silenciosa com a chuva, não tenho muita vontade de falar, em compensação tenho uma vontade absurda de escrever. Parei um pouco para tomar café e esticar as pernas. E vasculhei minha bolsa para achar um pedacinho de papel e lápis. Você sabe da minha predileção por lápis. Tive um grande insight essa noite, queria contar para você porque é importante. Quando não escrevo me sinto amordaçada, pior do que não falar. Porque escrever é falar duas vezes, é falar com sentimentos, é falar de dentro de mim para dentro de você. Entendeu a dimensão disso?
Fico feliz por sempre ter selos comigo. Desculpe pelo envelope meio amassado e pelo bilhete nesse papelzinho de fundo de bolsa. Era importante dizer.
Uma pena não ter noticias suas, queria tanto saber. quando eu chegar e tiver endereço fixo, tenho certeza que suas cartas chegarão a mim.
love.
C.