Eu tenho aqui dentro, dentro de mim, uma fera. Às vezes consigo fazê-la dormir por um tempo. E durante esse tempo experimento uma quase paz, um quase encontro, quase não preciso de sentido. Quando a fera dorme, consigo existir sem grandiosidade, sem questionamento, quase durmo, quase descanso. Não preciso de erudição, nem metáforas, passo longe de verbos difíceis de conjugar. Ah! Quando a Fera dorme, eu quase esqueço que há uma busca, eu apenas vivo com simplicidade e com coração puro. O tempo é sempre bom, morno até, não há frio, nem grandes opostos, sobretudo, quando a fera dorme, não há dor.
Mas um dia ... nunca é de repente, a Fera, ela é esperta, chega de mansinho, sorrateira, dribla minhas defesas, percebo que ela está acordando por pequenos sinais: uma dorzinha latente, arrepios pelo corpo, suores, gritos roucos.
Os sinais vão se intensificando: um coração que bate descompassado e acelera-se sem motivo.
E finalmente, ela desperta. É a volta da consciência da busca, do sentido, das metáforas, passo os dias conjugando verbos, respirando em arquejos, gritos mudos ecoam do meu peito.Fico alerta, sinto dor. Tenho sede, frio, fome ... fome de coisas que eu nem sequer sabia que queria. Nada me sacia quando a Fera acorda ... sou a pessoa mais exigente do mundo, quero tanto, quero a dor, quero o gozo, quero o mundo aos meus pés ... Ah! Quando a Fera desperta, não há alternativa, quero tudo em grandes goles, bebo a vida no gargalo....
Estou pensando, nesse exato momento, se canto uma canção de ninar ou se danço com minha Fera ao som de Dancin´days ... abra suas asas ... solte suas feras ....