No corpo uma sensação boa, era um prazer sutil. Ela precisava prestar atenção em si mesma para senti-lo. E no meio do dia, de repente ela se lembrava da sensação, parava, fechava os olhos e abandonava-se por alguns segundos, sutilmente. E nesse momento parecia que ela fazia sentido, parecia que sua existência não era fruto do acaso. Parecia que sim! Ela tinha um porquê. E sim! Ela deveria mesmo estar ali. E, por Deus, sim, ela deveria estar sentindo aquilo. Sim! Sim! Sim! Ela tinha vontade de gritar, era um grito rouco, visceral, primal. SIM! Ela queria mais.
Mas ela não dizia, não gritava, quase não existia, só sorria, sorriso debochado, luxuria pura. Esse intenso e breve momento deixava em seu corpo uma marca, como se nela morasse uma brisa, leveza de carícia, sutil. Parecia pouco, mas era muito.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Inédito
Ela olhou pela janela. Os carros passavam como naquelas fotos em que se vê a luz e seus contornos, mas não o carro em si. Como se os carros fossem borrões de luz. Luz branca, luz vermelha. Indo. Vindo. E ela ali, parada, olhando, sem ver. E os pensamentos correndo, deixando também borrões de luzes, multicoloridas. Ela não se fixava em nenhum pensamento, deixava-os flutuando, podiam ir e vir. Ela não queria ordená-los. A ordem era essa: não há ordem. E isso era inédito.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Além do entendimento...
Eu acredito na beleza além do entendimento. Mesmo não entendendo, gosto, talvez por intuir a poesia. A poesia, muitas vezes, mora nas entrelinhas. Como em um jogo, gosto de adivinhar sentimentos, inventar sensações, ver entre as linhas, ver além das linhas. Sou levada pelo ritmo das palavras, mesmo as estáticas, mesmo as que fingem não ser o que são. Discretamente, com o canto do olho, vejo o que está atrás da sentença. As palavras mais doces sussurram seus segredos. Gosto do que não entendo, mas que sinto, assim mesmo, ou por isso.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Será que há uma questão?
Termino com uma questão que talvez só você possa me ajudar: Será que há uma questão?
Ele primeiro achou graça da pergunta. Até sorriu ao terminar de ler, em seguida pensou em respostas espirituosas que pudessem mostrar como ele era inteligente e bem humorado. Todo mundo quer ser inteligente e bem humorado, alguns são, outros demonstram ser. Mas acabou achando que não tinha graça nenhuma, aliás que tipo de pergunta era aquela? Lógico que há uma questão. Sempre há. Ou não? Ele era o amigo imaginário dela, ela queria ter um amigo. Primeiro criou ela mesma, que é para ter alguém, antes de ter o amigo. E ele apareceu. Ela fez o teste: Por favor, Sir, desenha-me um carneiro? Ele disse que sim, quantos carneiros ela quisesse. Ela só quis um. E a partir desse dia eles se tornaram amigos. Mas voltando a questão ... e ele finalmente entendeu. Era um adeus. Ela sabia a hora de partir e a hora de deixar partir. Grandes amigos são assim. Talvez fosse essa a questão. Talvez, ele pensou.
Ele primeiro achou graça da pergunta. Até sorriu ao terminar de ler, em seguida pensou em respostas espirituosas que pudessem mostrar como ele era inteligente e bem humorado. Todo mundo quer ser inteligente e bem humorado, alguns são, outros demonstram ser. Mas acabou achando que não tinha graça nenhuma, aliás que tipo de pergunta era aquela? Lógico que há uma questão. Sempre há. Ou não? Ele era o amigo imaginário dela, ela queria ter um amigo. Primeiro criou ela mesma, que é para ter alguém, antes de ter o amigo. E ele apareceu. Ela fez o teste: Por favor, Sir, desenha-me um carneiro? Ele disse que sim, quantos carneiros ela quisesse. Ela só quis um. E a partir desse dia eles se tornaram amigos. Mas voltando a questão ... e ele finalmente entendeu. Era um adeus. Ela sabia a hora de partir e a hora de deixar partir. Grandes amigos são assim. Talvez fosse essa a questão. Talvez, ele pensou.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Catarse
Transbordar. Revelar. Assumir. Ela desejava. Era mais que desejo, ou era o maior dos desejos. E por ser, transbordou. E por não poder conter, revelou-se. E na revelação veio a sabedoria, a entrega, a redenção. Não havia outra alternativa. Não havia outro caminho possível. O atalho não existia, não se pode passar pela vida, sem vivê-la. Desistiu do mapa, dos esquemas orientativos, das palavras alheias. Desistiu do fácil. Afinal, era simples. A simplicidade do encontro, do entendimento, da resposta. A resposta perseguida, enfim, com grandes asas pousa no seu colo. Para ela não restava nada, além de tudo. Isso, por enquanto, era suficiente. Assumiu.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Vestida de Ouro
Ela achou que não tinha mais o que dizer. Já disse tanto em tantas vezes que resolveu deixar o silêncio fazer a sua parte. Em semana de Fashion Week viu em alguns desfiles muito ouro nos modelitos de inverno (dourado está demode, a cor agora se chama ouro) e achou que ficaria na moda se o adotasse, afinal, dizem que o silêncio é de ouro. E fingindo-se na passarela desfilou trajando silêncio. E não é que a tal roupa é muito confortável. Enfim, na moda.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Inusitado.
Ela gostava do inusitado, tudo que aos outros parecia esquisito, para ela era lindo. Muitas vezes as pessoas não sabiam se ela estava falando sério, julgavam-na brincalhona. Está certo, ela era um pouco esquisita. Adotava uma dieta alternativa que ela mesma tinha inventado, não era totalmente vegetariana, pois acreditava que alguns animais queriam de fato ser comidos e era incapaz de decepcioná-los. Comia verduras, legumes e frutas da estação, tinha um calendário na bolsa. Sempre que estava na fila de um restaurante por quilo, sacava o calendário antes de colocar qualquer legume no prato. - Deus me livre comer de fora da estação dizia enquanto fazia o sinal da cruz. Nunca comprava roupa nova, era contra a indústria da moda, suas roupas foram herdadas e exibia com muito orgulho as saias da avó. Ela tinha sido hippie, autêntica, dizia. Não andava de ônibus, só a pé ou de carro, lógico, porque afinal ela também gostava de conforto. Em casa só assistia desenhos, não gostava de novela, de jornais e de filmes tristes. Mas lia muito, comprar livros era uma compulsão e um grande luxo que se permitia.
Tinha uma linda biblioteca em casa, os livros estavam divididos em ordem alfabética, em outros casos pela nacionalidade do autor, outros pelo tema, mas existia uma prateleira especial, eram Os Intocáveis. Livros tão importantes na sua vida, palavras, personagens, histórias preciosas. Era uma ofensa pedir emprestado.
Fiquei sabendo que no seu testamento ela deixou a prateleira dos Intocáveis para sua neta, como fez a avó hippie. Ela ainda não tinha filhos, muito menos netos, mas sabia que um dia eles chegariam e seu tesouro já tinha destino certo.
Tinha uma linda biblioteca em casa, os livros estavam divididos em ordem alfabética, em outros casos pela nacionalidade do autor, outros pelo tema, mas existia uma prateleira especial, eram Os Intocáveis. Livros tão importantes na sua vida, palavras, personagens, histórias preciosas. Era uma ofensa pedir emprestado.
Fiquei sabendo que no seu testamento ela deixou a prateleira dos Intocáveis para sua neta, como fez a avó hippie. Ela ainda não tinha filhos, muito menos netos, mas sabia que um dia eles chegariam e seu tesouro já tinha destino certo.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Perdão.
Ela ensaiou muitas vezes, voz baixa, voz alta, aos gritos, em pensamento. A frase era simples, muito fácil de repetir. Mas ela sabia que só teria o efeito esperado se fosse dita com o sentimento correto. Mais que expressão corporal ela queria a expressão do sentir. Ela precisava sentir o que iria dizer. Ficou dias se preparando. Finalmente se sentiu pronta, precisava fazer logo.
Postou-se na frente do espelho, espelho de corpo inteiro, corpo presente. Olhou-se, intensamente, olhos nos olhos, e disse:
- Você me perdoa?
Postou-se na frente do espelho, espelho de corpo inteiro, corpo presente. Olhou-se, intensamente, olhos nos olhos, e disse:
- Você me perdoa?
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Astro-rei
Clareou. Mas ainda não era dia. Ela gostava do silêncio, desse possível apenas nessas horas que precedem o dia, gostava também do céu da madrugada, era como ver as estrelas se despedindo. Mãos cintilantes. Foi durante essas observações que percebeu que o sol chegava devagar, clareando de mansinho, coisa de astro-rei, que por ser, não precisa ostentar o título. Aprendeu com o sol.sábado, 10 de janeiro de 2009
Novo de fato!
Ela queria encontrar as palavras mais frescas possíveis, palavras vindas da aurora. Queria o frescor da madrugada, apenas alguns minutos antes do dia ser anunciado. O ano novo era assim. Mesmo sendo só uma mudança na folhinha, o ar parecia mais leve, a esperança revigorada, a fé renovada. Um ciclo novo. E com o novo, parece que tudo fica mais fácil, pode-se começar de novo, amar de novo, desejar de novo, enfim, pode-se viver de novo. Ela sabia que poderia se reinventar, ir dormir de um jeito e acordar de outro, modelo renovado, versão 2009. Fechar os olhos em 2008 e abrir em 2009, bastava piscar os olhos na hora certa. E foi exatamente o que ela fez. Esperou a meia noite e enquanto os fogos pipocavam no céu ela fechou os olhos e desejou o novo. Ao abri-los viu algo riscando o céu, uma estrela cadente (mesmo que de pólvora), desejou, dessa vez de olhos bem abertos, apreciando o novo que chegava.
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